quinta-feira, 23 de setembro de 2010

MEMÓRIAS DE UMA TORMENTA NA RIA FORMOSA 1977


AVENTURA NA RIA FORMOSA

Estávamos em pleno Inverno, no ano de 1977.
Era Domingo e os velejadores do Naval de Faro, e Faro e Benfica, realizavam mais uma "saída" para a Ria Formosa,
Nessa altura, a Ria enchia-se regularmente de velas brancas que davam cor e beleza a este verdadeiro Paraíso Natural.
Saímos a Doca de Faro "à pagaia" , passámos a ponte do comboio, e aparelhámos os barcos junto ao cais das Portas do Mar.
Nessa manhã fazia-se sentir uma leve brisa de sudoeste, e de velas ao vento iniciámos a navegação.
Pelos canais da Ria Formosa, rumámos à Ilha dos Tesos, e quando mais à frente passámos pelo Cais Comercial reparámos no aumento progressivo da intensidade do vento, que continuaria a aumentar até à Ilha do Farol, onde atracámos junto ao cais de embarque dos barcos da carreira.
Nesse dia navegavam pela Ria cerca de duas dezenas de embarcações, comandadas por jovens velejadores com idades compreendidas entre os 16 e 20 anos, eu era dos mais novos.
Almoçámos no Farol, visitámos a Ilha, e quando começámos a aparelhar os barcos começou a entrar uma tormenta de Oeste bastante violenta.
Já a navegar de regresso a Faro, na Praça Larga, deparámo-nos com uma situação verdadeiramente "dantesca", as águas estavam completamente alteradas, ondas com cerca de um metro, ou mais, e o vento a soprar fortíssimo.
Alguns velejadores da classe snipe desistiram imediatamente do regresso a Faro e, arriando a vela grande, apenas com o estai, rumaram a Olhão, percurso mais favorável e seguro.
Eu, no cadete, mais dois snipes empreendemos o percurso até Faro, à bolina, bordejando pelo canal da Ria Formosa e enfrentando a tormenta.
Perto do Cais Comercial, mesmo à minha frente, assisti estupefacto a um dos snipes partir violentamente o mastro, e ter de encostar à margem, manobra que conseguiu realizar em relativa segurança, ficando a aguardar por auxílio.
Nesse dia só chegaram a Faro dois barcos, um snipe e o cadete onde eu velejava.
Quando entrámos na Doca de Faro verificamos uma situação algo alarmante, os Bombeiros e Marinha saíam para a Ria Formosa tentando localizar e rebocar as embarcações que estavam espalhadas um pouco por todo o lado, incapazes de regressar em segurança, e os pais dos velejadores, como é normal, muito preocupados.
Era já noite cerrada quando todos regressaram sãos e salvos à Doca de Faro.
Foi uma das maiores aventuras que vivi na Ria Formosa, onde, em tempos que já lá vão, saíamos velejando, sem qualquer barco de apoio, contando apenas com nós próprios e com os colegas, mas nessa altura provavelmente a Ria tinha mais beleza.